Pipa de franjas azuis | meiaum

Pipa de franjas azuis

A tristeza do mundo me foi adiantada através de uma música. Eu tinha seis anos quando o caminhão de gás percorreu a minha rua pela primeira vez e usou Beethoven para anunciar a chegada. Ouvi a Sonata ao Luar simplificada, uma mixagem abafada que transformou as nervuras e os véus da canção original em um corpo grosso de notas indistintas. Parecia que dentro do caminhão de gás existia um piano de metal quente e enferrujado, dentado com teclas ocas que esfarelavam fácil, como pernas de barata morta.

Lembro que, quando a música começou, eu lavava as mãozinhas carimbadas de terra na pia do banheiro de visitas. Era macio, no início, mas, à medida que a sonata da lua evoluía, as notas se envaideciam em desalinho e ameaçavam interromper umas às outras, raivosas que estavam. Mas elas se reconheciam em meio ao caos, e passavam a trabalhar juntas como membros de um corpo quente que escala uma geleira pontiaguda. Parecia que o caminhão de gás tocava Beethoven para transmitir toda a miséria, toda a dificuldade e todo o amor do mundo.

Imaginava a música como uma pipa de franjas azuis, amarrada no para-choque do caminhão de gás, a flutuar ao longo de uma passarela de abelhas e fios de alta tensão. Mal chegava Beethoven à rua e o maldito caminhão arrastava a pipa lunar para longe da minha janela, interrompia o piano enferrujado e as coisas todas que ele tentava comunicar às empregadas, aos aposentados, às donas de casa e às crianças que estudavam à tarde.

Estava convencida de que os homens do caminhão branco se disfarçavam de vendedores de gás de cozinha quando, na verdade, comercializavam tristezas. A música da lua atravessava janelas e portas fechadas, como migalhas de fogo que rodopiam até nossas casas, até nossos quartos individuais.

Conservo assim a lembrança daquele aborto de manhã, quando ouvi a sonata da lua pela primeira vez: projeto de gente que era, escorreguei as mãozinhas ensaboadas até a borda da pia, de onde vi a água suja do meu corpo descer pela garganta do ralo em gorgolejo feroz. No dia em que ouvi Beethoven, tudo em mim latejou.

Depois que me desvirginei de música, passei a ansiar pelo retorno do carro de espalhar tristezas. Era infalível – todo dia, ele ensaiava aproximação da minha janela e dela se afastava num arranque feroz (eu nenhuma vez gritei que parasse, porque sabia que era pequena demais para agarrar as notas que queria junto a mim). Imaginava histórias inteiras a se desenrolar em filtro áspero e azulado, através de uma lente que aprofundava os ocos e contrastava com todo o asseio e a maciez do meu universo de menina bem guardada em gaveta cheirosa.

Quando entendi que aquela era uma sonata sobre o desalento, minhas histórias começaram a convergir para a imagem de duas mãos muito brancas, feitas do marfim das presas de uma fera primitiva. As mãos da minha história coreografavam o desespero e, na dança, as polpas dos corpos se desencontravam, as conchas dos dedos escorregavam para longe umas das outras, e se procuravam numa câimbra violenta.

Pois adianto aqui o desfecho da descoberta que fiz aos seis anos, quando o caminhão de gás visitou minha rua: a música que vazava pelas frestas de portas e contornava os trincos das janelas, em profanação do silêncio das nossas casas, cessou. Mas aquele sentimento de descoberta, o de estar prestes a limpar o embaçado de um espelho para encontrar um rosto que não é o meu a me olhar com misto de curiosidade e medo, eu ainda experimentaria outras vezes. Eu era feliz e vivia num afã de desvelar novas tristezas e decorá-las de mim, a ponto de virarem sonatas.

A imagem da pipa que esquadrinhava novas ruas com o caminhão de gás desvaneceu, e se transformou na figura de um coração anil, que eu sentia pulsando junto ao meu, como se, para todo sangue que percorresse meu corpo, existissem tintas coloridas a percorrer um corpo invisível destinado a amar músicas tristes.

No destaque: O menino do papagaio, de Candido Portinari.

Mariana Lozzi Mariana Lozzi

Aluna de jornalismo diagnosticada por professores de redação com o “mal da fuga ao tema”. As metas de Mariana para 2014 se resumem a organizar sua gaveta de meias e a entender a lógica das tesourinhas.

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