Notícias que não vêm da Espanha

            A imprensa brasileira está ignorando um fenômeno que há 15 dias agita a Espanha e várias cidades da Europa: o 15-M, também chamado de DRY — Democracia Real Ya (democracia real, já), ou de “Os indignados”. Desde 15 de maio – daí 15-M – milhares de pessoas estão acampadas na Porta do Sol, em Madri, e nas principais cidades espanholas. Outros acampamentos e manifestações de apoio ocorrem em cidades da Itália, da Grécia, da Alemanha, da Bélgica, da Dinamarca e da França.

            Ao estilo do notícia-só-se-for-espetáculo, o 15-M saiu nos telejornais e nos jornais no Brasil quando a polícia de Barcelona reprimiu com violência os acampados na Praça da Catalunha. A ação policial, com quase cem feridos, não desanimou as centenas de catalães que voltaram à praça e ainda lá estão. E, nas raras vezes em que fala do movimento, a imprensa brasileira o limita a protestos contra o desemprego e contra as medidas de ajuste econômico que a Espanha e outros países têm adotado para enfrentar a crise financeira.
 
            Pois o nosso establishment em Brasília e em São Paulo, especialmente, deveria prestar mais atenção ao que acontece na Espanha, que é muito mais do que um descontentamento diante do desemprego e da falta de perspectivas dos jovens. É um movimento político que se declara apartidário e asindical, mas que na verdade hostiliza os partidos e não acredita nos sindicatos. É um movimento, como se proclama, “sem cores e sem bandeiras”.
 
            As primeiras convocações, feitas principalmente pela internet e pelas redes sociais, sintetizavam o espírito da coisa: “Não somos mercadorias nas mãos de políticos e banqueiros”. Animados com o sucesso na Europa, os militantes do 15-M anunciam para 15 de outubro uma mobilização mundial.
 
            Para os que acham ser apenas um protesto de desempregados, uma surpresa: as principais bandeiras, adotadas por consenso em assembleias abertas, são contra a corrupção, pela transparência e por uma reforma eleitoral na Espanha, para que a democracia seja direta e participativa. Para mudar a Lei Eleitoral, o DRY pretende apresentar uma Iniciativa Legislativa Popular, nos moldes da que, aqui no Brasil, levou à Lei da Ficha Limpa.
 
            Não é uma revolução, embora se fale de spanish revolution, nem vai derrubar governos. Não é um movimento apenas de jovens, pois há participantes de todas as idades e situações sociais. Mas é um sinal de que mesmo nos países desenvolvidos aumenta o descontentamento de grandes parcelas da população diante de um sistema político que centraliza o poder em poucos e ignora as reais aspirações populares. Pode incomodar bastante o poder estabelecido. Na Espanha, na Europa, em Brasília.
           
 
            Outro maio?
 
            Alguns dos lemas do 15-M ajudam a entender seu espírito:
            – Sem o povo vocês não são nada.
            – Se não há pão para o pobre, não haverá paz para o rico.
            – Não falta dinheiro, sobram ladrões.
            – Por uma lei eleitoral justa.
            – Acabaremos com o sistema antes que o sistema acabe conosco.
            – O povo unido funciona sem partidos.
            – Eu valho mais do que um voto.
            – Menos gastos militares, mais gastos sociais.
            – Não ao governo dos bancos.
            – Maio de 68 pedia o impossível, maio de 2011 realizará o impossível.
           
           
            O manifesto do 15-M
           
            Para entender melhor o movimento na Espanha, eis o Manifesto do 15-M:
 
            “Somos pessoas normais e comuns. Somos como você: gente que se levanta pela manhã para estudar, para trabalhar ou para buscar trabalho, gente que tem família e amigos. Gente que trabalha duro todos os dias para viver e dar um futuro melhor aos que nos rodeiam.
            Alguns de nós se consideram mais progressistas; outros, mais conservadores. Uns são crentes, outros não. Uns têm ideologias bem definidas, outros nos consideramos apolíticos… Mas estamos todos preocupados e indignados com o panorama político, econômico e social que vemos a nosso redor. Por causa da corrupção dos políticos, empresários, banqueiros… Pela condição indefesa do cidadão a pé.
            Esta situação causa danos a nós todos, diariamente. Mas se todos nos unirmos, podemos mudá-la. É hora de nos colocarmos em movimento, hora de construirmos uma sociedade melhor. Por isso, sustentamos firmemente o seguinte:
            – As prioridades de toda sociedade avançada devem ser a igualdade, o progresso, a solidariedade, o livre acesso à cultura, a sustentabilidade ecológica e o desenvolvimento, o bem-estar e a felicidade das pessoas.
            – Existem direitos básicos que devem ser assegurados nestas sociedades: direito à moradia, ao trabalho, à cultura, à saúde, à educação, à participação política, ao livre desenvolvimento pessoal, e direito ao consumo dos bens necessário para uma vida sã e feliz.
            – O atual funcionamento de nosso sistema econômico e governamental não atende a essas prioridades e é um obstáculo para o progresso da humanidade.
            – A democracia parte do povo (demos=povo; cracia=governo), portanto o governo deve ser do povo. Porém, neste país a maioria da classe política sequer nos escuta. Deveriam levar nossa voz às instituições, facilitando a participação política direta dos cidadãos e procurando o maior benefício para a maioria da sociedade – não para enriquecerem e prosperarem às nossas custas, atendendo apenas às ordens dos grandes poderes econômicos e aferrando-se ao poder por meio de uma ditadura partidocrática encabeçada pelas siglas inamovíveis do PPSOE. (nota: referência aos dois principais partidos da Espanha, PP e PSOE).
            – A ânsia de acumulação de poder em uns poucos gera desigualdade, crispação, injustiça, que conduzem à violência, que rechaçamos. O modelo econômico vigente bloqueia o mecanismo social em uma espiral que consome a si mesma, enriquecendo poucos e mergulhando o resto na pobreza e na escassez. Até o colapso.
            – A vontade e finalidade do sistema é a acumulação de dinheiro, colocando-a acima da eficácia e do bem-estar da sociedade. Desperdiçando recursos, destruindo o planeta, gerando desemprego e consumidores infelizes.
            – Nós, cidadãos, formamos parte da engrenagem de uma máquina destinada a enriquecer uma minoria que não sabe de nossas necessidades. Somos anônimos, mas sem nós nada disso existiria, pois nós movemos o mundo.
            – Se, como sociedade, aprendemos a não confiar nosso futuro a uma abstrata rentabilidade econômica que nunca redunda em benefício da maioria, poderemos eliminar os abusos e carências que todos sofremos.
            – É necessária uma Revolução Ética. Estão colocando o dinheiro acima do Ser Humano e precisamos colocá-lo a nosso serviço. Somos pessoas, não produtos do mercado. Não sou apenas o que compro, por que compro e de quem compro.
            Por tudo isso, estou indignado.
            Acredito que posso mudar.
            Acredito que posso ajudar.
            Sei que unidos podemos.
            Vem conosco. É teu direito.”
 
            Para não dizer que não falei…
            O que teria acontecido com o ministro Antonio Palocci na Espanha? Estaria ainda no cargo?
 
 
 

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