A CPI é um espetáculo

 
Uma CPI é uma comissão de inquérito, o problema é que é também parlamentar. Comissão Parlamentar de Inquérito. Uma CPI, por ser parlamentar, não investiga realmente doa a quem doer, pois nela prevalecem interesses políticos e partidários que são a negação de qualquer investigação isenta e idônea. É assim que a coisa funciona, por isso falar que a CPI do Cachoeira vai acabar em pizza é de uma obviedade ululante.
            Mas nada se perde. Uma CPI possibilita ao cidadão comum, sentado em sua casa, assistir a momentos ora cômicos, ora ridículos, ora deprimentes, como o não depoimento de Carlos Cachoeira. A lógica indica que se o advogado do contraventor anunciou previamente que ele nada falaria, o natural seria dispensar prontamente a pantomina. Evitar a espalhafatosa e dispendiosa escolta policial, evitar a mobilização de servidores e jornalistas em louca cavalgada para nada, evitar que se jogasse mais água na já transbordante desmoralização do Congresso Nacional.
            Teria sido evitado, especialmente, o insólito interrogatório em que suas excelências perguntavam, com veemência, sabendo que não teriam resposta. E literalmente se entregando ao bandido. Na verdade, deputados e senadores queriam mesmo era se exibir para a televisão, mostrando irritação e indignação tão falsas quanto suas promessas de campanha. A exibição foi desastrosa, mas se há quem goste de Big Brother, de UFC, de Sílvio Santos e de alguns seriados enlatados, certamente haverá quem tenha gostado da performance.
            A imprensa deu sua contribuição ao ridículo repetindo a velha história de eleger uma “musa”. Sem qualquer imaginação, sem qualquer criatividade, do mesmo jeito que produz histórias sobre o peixe na semana santa. A “musa” da vez foi a mulher de Cachoeira, coberta de roupas, sapatos e acessórios caros e escoltada por advogados que ganham em uma hora sem nada fazer o que trabalhadores ganham em um ano com muita labuta. Aliás, o ex-ministro Márcio Thomaz Bastos, advogado de Cachoeira, também contribuiu para o tom de comédia, gargalhando quando o mais apropriado seria chorar. Se bem que é difícil chorar com honorários de 15 milhões de reais. Aliás, de novo: mesmo que não seja esse o valor, de onde vem o dinheiro?.
            Há deputados e senadores sérios na CPI e no Congresso. Querem apurar, investigar. Exercem seu papel, tentam realmente fazer o trabalho que tem de ser feito, apesar dos poucos recursos de que dispõem e da má vontade dos que querem negociar culpados e inocentes. Mas, a não ser que haja uma fortíssima pressão de opinião pública e surja um motorista Eriberto ou um caseiro Francenildo para contar tudo, vamos ter mesmo a aguardada pizza.
 
            Já é ruim, pode piorar
 
            Especula-se que o ainda senador Demóstenes Torres possa manter seu mandato graças ao voto secreto no Senado. Parece muito difícil, mas ali, a oeste da Praça dos Três Poderes, tudo é possível e não se deve duvidar de nada. Se Demóstenes ganhar no voto, o Senado e os senadores chegarão ao fundo do poço (de onde não estão muito longe). E haverá muita gente tentando impedi-los de sair do buraco, pois estará comprovado que o país estará melhor sem eles. O que não quer dizer, ressalve-se, que um país democrático possa prescindir de eleições e de parlamentos. Mas o nível pode melhorar.

1 comentário

  1. Joel Alves
    25 de maio de 2012 at 16:20 · Responder

    Já não se fazem CPIs como antigamente.

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