O direito de invadir

                Uma igreja invade terra pública, no Condomínio Sol Nascente, e começa a construir um templo. O poder público age e demole a construção irregular. Para a Arquidiocese de Brasília, da Igreja Católica Apostólica Romana, “a atitude tomada pelo órgão competente infringe o direito ao culto e mesmo a liberdade religiosa”. A nota é assinada por “Dom” Waldemar Passini Dalbello.
                Esse fato mostra dois absurdos: primeiro, a poderosa Igreja Católica achar que tem o direito de construir capelas onde bem entender; segundo, a apelação do “Dom” de querer confundir a infração com “direito ao culto” e “liberdade religiosa”.
                A passividade de algumas autoridades e a conivência de outras, por medo da força política e eleitoral de igrejas, criou a mentalidade de que padres e pastores tudo podem. Mas todos, sem exceção, estão sujeitos à lei e às normas urbanísticas. Direito ao culto e liberdade religiosa não liberam invasão de terras, construções fora de gabarito, ausência de alvará e som alto perturbando a vizinhança, entre outros abusos de nossas igrejas.
                E, sempre é bom lembrar, o Brasil é um país laico. Estados religiosos são o Irã, Israel e o Vaticano.
                 

O Sudoeste seria mais embaixo

               Falei de José Aparecido de Oliveira, que marcou seu mandato de governador com o tombamento de Brasília como patrimônio cultural da humanidade. Mas é preciso falar também de outro governador que muito contribuiu para impedir a especulação imobiliária desenfreada em Brasília: Elmo Serejo Farias, que governou de 1974 a 1979.

                Elmo Farias construiu o Parque da Cidade, ocupando, de ponta a ponta,  o extremo oeste da Asa Sul. Se não fosse o parque, certamente a área teria sido loteada pela Terracap e hoje seria um Sudoeste muito maior e mais perto da Asa Sul. Em vez disso, temos o maior parque urbano do mundo.
                Como Farias era governador nomeado pelo general Ernesto Geisel, havia uma reação natural dos que se opunham à ditadura. Houve resistências à construção do parque, sob a alegação de que os recursos deveriam ir para saúde e educação e coisas assim.  E depois, protestos porque ele deu ao parque o nome de seu filho que morreu em acidente de carro, Rogério Pithon Farias.
                Talvez sem essa intenção, Elmo Serejo Farias construiu um dique para impedir que Brasília ficasse totalmente na mão de construtoras e empreiteiras. Salvou uma área importante para o Plano Piloto.
                O governador Agnelo Queiroz pode se colocar ao lado de Aparecido e Elmo se tiver coragem de enfrentar a especulação imobiliária e impedir absurdos como o setor Catetinho, as novas quadras no Sudoeste, aumento de gabaritos na W3 e algumas medidas que vêm sendo tramadas à sombra das alterações no PDOT.
 
               

Tiririca e Romário na mira

                Como se não houvesse nada importante acontecendo, parte da imprensa agora está preocupada com quem deputados contratam como assessores. Primeiro, criticaram o deputado Tiririca por ter contratado dois colegas de trabalho para seu gabinete. Agora pegam no pé do deputado Romário por ter contratado uma atriz.
                Como sempre, o secundário no lugar do principal, o espetáculo no lugar do que é relevante. Tiririca e Romário contratam quem eles quiserem. Se são humoristas ou atrizes, não há nenhum problema.
                O problema principal não é esse. O problema é que deputados podem contratar assessores demais, muito mais do que realmente precisam para exercer bem o mandato.  E alguns aproveitam para empregar cabos eleitorais que não trabalham.
                Alardear que são humoristas ou atrizes é apenas preconceito e fazer espetáculo.

Mais um ataque ao patrimônio

                José Aparecido de Oliveira deveria ser o ex-governador mais homenageado em Brasília. Sua gestão (1985-1988) foi polêmica, havia muitas críticas. Mas, mesmo que nada tivesse feito em todo o mandato, já mereceria o reconhecimento dos brasilienses que gostam da cidade por uma única realização: inscrever o Plano Piloto de Brasília no patrimônio cultural da humanidade. Aparecido tombou o Plano Piloto e assim evitou o avanço sobre áreas verdes e uma ainda maior especulação imobiliária em Brasília.

                Não fosse o tombamento, ninguém seguraria as empreiteiras, as construtoras e seus milhões de reais circulando entre as autoridades do Distrito Federal. Conseguiram aumentar absurdamente o gabarito em Águas Claras, construir edifícios altos no Guará, desvirtuar diversos setores, como as margens da Epia e as 900 Sul e Norte. Fizeram o Sudoeste sem pensar na circulação de veículos e agora querem criar mais superquadras às margens do Eixo Monumental. Inventaram o Noroeste/Miami e ainda pensam no Catetinho para ganhar muito dinheiro.  
                Essa turma sempre quer mais. A última é o aumento do gabarito nos setores hoteleiros Sul e Norte, às margens das W3, de três para sete andares. O pretexto é a Copa do Mundo, pois serão necessários mais quartos de hotel. Será, é claro, excelente negócio para os donos dos 14 terrenos e construtoras. E péssimo negócio para a população e para a cidade.
                Como sempre acontece nesses momentos, um argumento dos hoteleiros é a famosa “geração de empregos”. Empresários acham que com esse argumento convencem todo o mundo a aceitar suas manobras à custa do patrimônio tombado e da qualidade de vida dos brasilienses.
                O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – Iphan – tem sido meio conivente com violações ao tombamento, mas de modo geral defende a cidade. Terá, diante dessa nova ofensiva, oportunidade de mostrar que não vai permitir mais distorções.