Pegou muito mal

                O exemplo não poderia ter sido pior, vindo de onde veio. Sem processo e sem direito de defesa, o Conselho da Ordem dos Advogados do Brasil do Distrito Federal tentou afastar um diretor eleito de suas funções. Foi preciso que o Conselho Federal da OAB, diante do absurdo, mandasse o diretor ser reintegrado.
                A vítima da prepotência da OAB-DF foi o presidente da Caixa de Assistência dos Advogados, Everardo Gueiros Filho. O presidente da OAB-DF, Francisco Caputo, alegou que  havia irregularidades em uma obra realizada pela Caixa e por isso toda a diretoria deveria ser afastada. Para comprovar, Caputo encomendou uma auditoria a uma empresa que tem escritório em Teresina, no Piauí.
                Gueiros então pediu uma perícia, realizada por um engenheiro civil e de segurança do trabalho, que comprovou estar o preço da obra – R$ 58.960,40 – compatível com os praticados em Brasília, não havendo irregularidades. O que a auditoria piauiense havia constatado era um preço maior apenas de uma mangueira de 25mm, o que representa 2,3% do custo da obra.
                Para afastar Gueiros, Caputo pediu aos demais diretores da Caixa que se afastassem e convocou uma sessão extraordinária e secreta do Conselho Pleno sem dar direito de defesa ao acusado. Gueiros recorreu ao Conselho Federal, que determinou sua reintegração ao cargo enquanto o mérito não é julgado.
                O que muitos advogados perguntam é o motivo de Caputo querer afastar Gueiros, a qualquer custo, um ano e pouco depois da eleição em que fizeram campanha lado a lado. Afinal, ainda falta muito tempo para a próxima eleição

O desespero do Nobel

                É fácil qualificar (ou desqualificar) um político chamando-o de populista. Deixa-se de lado o conceito acadêmico e simplesmente decide-se que alguém é populista e pronto. Segundo boa parte de nossa imprensa simplista, o segundo turno das eleições no Peru será disputado entre um populista de esquerda, Ollanta Humala, e uma de direita, Keiko Fujimori. Embora Keiko tenha claras tendências neoliberais, seus similares brasileiros preferiam que Pedro Pablo Kuczynski enfrentasse o esquerdista Humala.
                O excelente escritor e péssimo político Mario Vargas Llosa foi de extremo mau gosto ao dizer que o segundo turno é a escolha entre a aids e o câncer terminal. Llosa, direitista assumido, foi derrotado pelo pai de Keiko, Alberto Fujimori, nas eleições de 1990. Uma surra de 62% a 37%. Desolado, abandonou o Peru e se mudou para a Europa.
               

Troca de guarda

                Voltaram os velhos tempos, em que as potências interferiam militarmente nas disputas internas de outros países. Agora, a pretexto de proteger civis, ou garantir resultados eleitorais, ou defender direitos humanos. Antes não precisavam de desculpas, mandavam os fuzileiros e pronto.

                As tropas da França foram decisivas para que o ex-presidente Laurent Gbagbo fosse derrubado e preso pelas forças de Alassane Ouattara, presidente eleito. As suspeitas de fraude nas eleições, que provavelmente ocorreram, foram descartadas porque as potências ocidentais queriam mesmo tirar Gbagbo do poder que exercia ilegitimamente há 11 anos.
                O que a França fez, com apoio dos Estados Unidos e da chamada “comunidade internacional” (leia-se “grandes potências”) foi colocar o bandido de quem gostam no lugar do bandido de quem não gostam mais.  As forças de ambos, em investigações isentas, seriam acusadas de assassinatos, violações sexuais e agressões a civis.
                O conceito de neocolonialismo está sendo ressuscitado na África.
                 

Minhocão inundado

                A mais lúcida avaliação sobre a inundação do Minhocão, na UnB, veio do coordenador-geral do Diretório Central dos Estudantes (DCE), Vitor de Lima Guimarães. Refutando os que insistem em dizer que não há nenhuma deficiência na manutenção do longo prédio, Vitor foi claro, segundo o site do Correio Braziliense: “Talvez caiba avaliar se é correta a opção por construir novos prédios e expandir a universidade para outras regiões em detrimento das reformas da estrutura já existente”.

                Qualquer um que frequenta o Minhocão sabe que há deficiências graves no prédio e que a manutenção é precária. E Vitor tocou num ponto que é tabu na UnB, ao questionar, ainda que levemente, a expansão da UnB para outras regiões enquanto o campus na Asa Norte, denominado Darcy Ribeiro, sofre graves problemas. Seria muito mais racional, lógico e coerente que os limitados recursos da UnB fossem aplicados no câmpus que já existe, em vez de inventar câmpus de segunda classe em cidades-satélites, a pretexto de inclusão social.
              
              A dispersão de recursos atende, apenas, à demagogia e ao populismo. Alunos que moram em cidades-satélites têm é de ter condições de frequentar o câmpus da Asa Norte em igualdade de condições com os moradores do Plano Piloto e dos Lagos.