Câmpus da demagogia

 

                É difícil ouvir alguém fazendo este questionamento, mas não custa arriscar: para que a Universidade de Brasília tem câmpus em Planaltina, no Gama e na Ceilândia? Se a resposta tiver de ser em uma única palavra, não é difícil: demagogia. Porque, no fundo, não tem o menor sentido a UnB ter câmpus em cidades-satélites. Em duas palavras, é demagogia pura. Em três, é também cara para os cofres públicos.
                Uma coisa é as universidades federais de Goiás, Minas Gerais ou Paraíba, por exemplo, terem câmpus em outras cidades além das capitais. As distâncias e as peculiaridades regionais, às vezes bem acentuadas, justificam plenamente a abertura de câmpus no interior desses e de outros estados. Outra coisa é o Distrito Federal, esse pequeno retângulo, querer imitá-los. Planaltina está a 40 quilômetros do Plano Piloto. O Gama, a 30 quilômetros. Ceilândia, a 26 quilômetros. São como bairros em cidades grandes. É mais rápido um estudante ir de Planaltina ao Plano Piloto do que um colega carioca ir de Bangu à Urca.
                Seria muito mais lógico, racional, econômico, justo e inclusivo que, em vez de gastar R$ 24 milhões nas cidades-satélites (e isso é apenas 7% do total previsto), a UnB aproveitasse a enorme e ainda vazia área que tem o câmpus na Asa Norte para construir novos prédios, oferecer os novos cursos e receber mais alunos de todo o Distrito Federal. Mesmo que tivesse de lhes subsidiar o transporte, sairia mais barato.
                Mas a demagogia do então deputado e depois governador José Roberto Arruda, somada à do então reitor Timothy Mulholland, ambos com pretensões eleitorais, encontrou apoio no Ministério da Educação, interessado em executar o Reuni e descentralizar as universidades federais. E assim embarcou-se na falsa ideia de que esses câmpus significariam valorização, redenção e autonomia das cidades-satélites e a inclusão social de seus jovens.
                Tudo bobagem e enganação. Os câmpus das três cidades-satélites são, na verdade, uma UnB de segunda classe. Basta ver as reclamações de alunos e professores. Os prédios são ruins e alunos não terão as facilidades que teriam no Plano Piloto, como biblioteca central, restaurante, atividades culturais, possibilidade de cursar disciplinas em outras áreas e a importante convivência em um câmpus de verdade.
                Dos 13 cursos que oferecidos nas UnBs de segunda categoria, só um – Enfermagem – é oferecido também na Asa Norte. Isso significa que o estudante de Planaltina, da Ceilândia e do Gama que quiserem estudar Direito, Medicina, Comunicação, Psicologia e qualquer um dos demais 48 cursos do câmpus do Plano Piloto continuam tendo de se deslocar para a Asa Norte. E os estudantes de qualquer ponto do DF que queiram fazer um dos 13 cursos oferecidos nas cidades-satélites, têm de ir até lá. Se um jovem de Planaltina quiser estudar Fisioterapia, tem de ir à Ceilândia. Se o do Gama quer estudar Gestão do Agronegócio, tem de ir a Planaltina. Seria mais simples se todos fossem para a Asa Norte. Mesmo que a UnB tivesse de lhes subsidiar o transporte, sairia mais barato.
                Os câmpus nas cidades-satélites não promovem a inclusão, e sim a exclusão social.

Feira da Torre em novo local

                A feira da Torre de TV vai ser transferida. Há muito tempo que se pensa nisso, mas todas as vezes em que se tentou apareceram deputados distritais e secretários do GDF defendendo a “causa” dos feirantes, que querem ficar onde estão. Eles acham que terão menos fregueses no novo local, o que é uma enorme bobagem.

                É a velha história tão comum em Brasília: ocupa-se ilegalmente uma área, o governo faz vistas grossas, depois aparecem políticos para defender a legalização, mesmo que isso prejudique a cidade. Quando se tenta remover os ocupantes ilegais, vêm deputados e “líderes comunitários” oportunistas para protegê-los em troca de alguns votos.
                Onde está, a feira enfeia a cidade e prejudica o acesso de visitantes à Torre. É tosca, provinciana e insalubre. O local para onde vai é ao lado e será mais organizado. Mas, pelo que dizem os jornais, a maioria dos feirantes não quer se mudar. Na verdade, nunca quiseram, mas agora alegam que o projeto da nova área não foi executado como queriam e serão prejudicados.
                O projeto mudou mesmo, para pior. Obras, como se sabe, até podem beneficiar a população, mas o objetivo principal, infelizmente, tem sido o de gerar dinheiro para empreiteiras e governantes. Não deve ter sido diferente com a nova feira.  
                Mas isso é apenas pretexto para os feirantes. Se os políticos oportunistas não aparecerem, a mudança finalmente será feita, para o bem da cidade. Depois, os feirantes, tão organizados e tão protegidos, brigam para melhorar a área.

Minoria qualificada

                Muito vai ser dito e escrito sobre o massacre de crianças numa escola de Realengo, no Rio de Janeiro. O fato dramático comporta muitas análises e muitas medidas serão sugeridas para evitar sua repetição. É hora de lembrar que, em 2005, 59.109.265 brasileiros e brasileiras votaram contra o dispositivo legal que proibiria a comercialização de armas de fogo e munições no país.
                Os defensores das armas vão dizer, de novo, que proibir a venda não resolve, porque sempre haverá o contrabando e o mercado negro. E que as pessoas de bem precisam de armas para se defender. É a tese defendida nos Estados Unidos, onde episódios como o de hoje são quase corriqueiros.
                A proibição, no Estatuto do Desarmamento, não acabaria totalmente com a posse de armas, mas seguramente reduziria enormemente seu uso. Seria muito mais difícil consegui-las.  Na verdade, o que os defensores das armas estavam advogando eram os interesses das indústrias de armamentos e munições, que financiaram suas campanhas.
                Mesmo com a proibição, o massacre do Realengo poderia acontecer. Mas as probabilidades seriam bem menores. Os 33.333.045 brasileiros e brasileiras que votaram a favor da proibição de armas têm todos os motivos para estar, hoje, com a consciência mais tranquila.  
 
 
 
               

Amor e Revolução

                Não gosto de novelas, mesmo. E geralmente estou trabalhando quando passam. Logo, raramente as assisto. Mas quis ver pelo menos os dois primeiros capítulos de Amor e Revolução, no SBT. Curiosidade natural de quem viveu intensamente aquele período.
                Acho importante que as histórias da ditadura sejam contadas, que todos possam saber o que aconteceu naqueles tempos de amor e de guerra. Sou contra a anistia aos torturadores e assassinos. Uma coisa é combater, quando se corre o risco de matar ou morrer. Outra coisa, bem diferente, é torturar e assassinar friamente os inimigos. Crimes de guerra não prescrevem.
                Mas já que nossa transição para a democracia foi negociada pelas elites, que boa parte da esquerda mudou de lado e ainda há temor diante dos militares, temos de nos conformar que a anistia imposta em 1979 livrou os criminosos que torturaram e mataram, diferentemente do que acontece nos nossos vizinhos Argentina, Chile e Uruguai.   
                Contar a verdade, porém, não está proibido. Principalmente quando, na guerra política e ideológica que ainda persiste, a direita brasileira procura disseminar a ideia de que todos os que se organizaram clandestinamente para lutar contra a ditadura e pelo socialismo, armados ou não, eram terroristas totalitários. É uma maneira de demonizar pessoas que tiveram a coragem de combater e assim, por tabela, atingir a presidente Dilma Rousseff, o ex-ministro José Dirceu e outros sobreviventes. Os equívocos táticos e estratégicos cometidos não tiram o valor desses militantes.
                Amor e Revolução ajuda a entender um pouco o que se passou nos anos 60. Mas comete tantos erros históricos e mostra tantas situações absurdas que perde sua força narrativa. Passa, inclusive, a ideia falsa de que as ações armadas contra a ditadura já estavam sendo preparadas, antes do golpe de 1964, por estudantes radicalizados. Situações como as apresentadas estariam mais bem situadas em 1967-1968, especialmente depois do AI-5. E ninguém pode imaginar que um general de divisão totalmente envolvido na conspiração ficasse todo o tempo dentro de casa, fardado como se estivesse em uma solenidade, enquanto as tropas de Minas avançavam rumo ao Rio e Jango fugia.
                Pode ser licença ficcional, mas não custaria nada ser mais fiel aos fatos. E as falas dos revolucionários poderiam ser menos estereotipadas e mais reais. Uma boa consultoria de pessoas que viveram os fatos ajudaria o autor Tiago Santiago e o diretor Reynaldo Boury a refletirem melhor a época.
                Os depoimentos de militantes torturados, depois dos capítulos, são dramáticos e emocionantes. No segundo capítulo, Jarbas Marques, hoje conhecido dos brasilienses por suas atividades em defesa da história e do patrimônio da cidade, conta com detalhes o que passou no quartel da Barão de Mesquita, no Rio. São depoimentos para a História.
                A novela é fraca, mas a intenção é boa.