Lições para Brasília

Quem tem a responsabilidade de governar o Distrito Federal deveria ler a entrevista do arquiteto Richard Rogers ao repórter Mário César Carvalho, da Folha de S. Paulo. Foi publicada no dia 29 de março. Rogers, entre muitas outras coisas, projetou o Centro Georges Pompidou, em Paris, e o aeroporto de Heathrow, em Londres.

Nas frases abaixo de Rogers, é possível identificar, sem que haja qualquer referência a Brasília, temas recorrentes em nossa cidade, como segregação espacial, prioridade dada à construção de estradas e viadutos, péssimo sistema de transporte urbano, incentivos aos automóveis, estacionamentos, especulação imobiliária, setorização, W3 e Setor Comercial Sul.

Quem conhece Brasília, saberá fazer as relações:

“A integração é a única solução para as cidades. Em Londres, não temos favelas. Mas temos pessoas vivendo em habitações sociais, que são subsidiadas pelo governo. São prédios privados, nos quais o governo pode colocar pessoas pobres na porta ao lado de alguém muito rico. Uma área só para ricos contraria a ideia de cidade.”

“Não há soluções para o trânsito com carros (…) Quanto mais estradas você abre, mais congestionamento você terá. É preciso ter um sistema de transporte público realmente bom. Londres proibiu a abertura de estacionamentos na área central. Também é preciso controlar o número de carros que não estão em condições razoáveis. Há ainda pedágio para entrar no centro de Londres.”

“É inacreditável que em São Paulo as pessoas aceitem andar de carro a dez quilômetros por hora. A pé é mais rápido. É preciso cobrar mais impostos de carros para melhorar o transporte público.”

“É preciso restringir carros para ter mais espaço público. Espaço público é a principal razão para as pessoas gostarem de viver em cidades.”

“As cidades precisam de leis para controlar as forças do mercado.”

“Um terço da poluição do mundo vem dos carros. Reduzir imposto de carro não faz o menor sentido hoje.” (referência à medida tomada pelo governo Lula).

“Você precisa de usos mistos para recuperar uma área. Não faz sentido uma área só com shopping ou escritórios. Os governos estão fascinados com museus, mas só isso não funciona. Meu escritório fica numa área de Londres onde as pessoas não podiam ir há 15 anos, de tão perigosa que era. Hoje é uma das melhores áreas de Londres. Isso ocorreu porque há escritórios, moradias e museus. Quanto mais misturado, melhor.”